segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Brinquedos

Nem sempre um brinquedo traz alegria para uma criança.
Matheus fazia birra mais uma vez ao passar em frente à grande loja de brinquedos que havia na esquina de sua casa.
Havia meses que ele pedia sem tréguas pelo novo brinquedo do momento: o guerreiro das trevas, Esne, e o guerreiro da luz, Mach. Propagandas passavam a quase todo minuto na televisão além do desenho na parte da manhã.
Lúcia, sua mãe, mais uma vez tentava persuadi-lo a deixar o brinquedo de lado, ela não gostava de nada que influenciasse luta, o que ultimamente não estava sendo fácil de conter.
Com o Natal chegando o garoto não parava de escrever catas e mais cartas ao Papai Noel, o pedido era o mesmo, os dois bonecos, mas ele conseguia em cada carta um argumento diferenciado para poder ganhá-los.
Noeli, sua avó paterna era quem pegava as cartas para levar para o bom velhinho, ela lia cada carta que ele a entregava, sabendo que Lúcia não iria dar o brinquedo à criança resolveu fazer uma surpresa, indo à loja para comprá-los.
_Bom dia, posso ajudá-la? – a moça da loja estava visivelmente cansada, mas ainda assim exibia um lindo sorriso no rosto.
_Eu quero aqueles dois guerreiro... Como chama mesmo? É algo como Erne e Met, Eme...
_Você quer os Esne e Mach, os dois guerreiros estão em falta, só irão chegar ano que vem.
Após percorrer quase todas as lojas da cidade com as mesmas respostas e quase desistindo percebeu uma pequena loja de fachada roxa e azul, na vitrine alguns guerreiros do mesmo desenho, contudo não havia os principais.
_Senhora? – Noeli deu um pulo de susto com o senhor estranho que estava ao seu lado, longos cabelos enrolados, de vestes escuras e cheio de brincos, anéis e pulseiras – desculpe tê-la assustado, eu ainda tenho algumas poucas unidades de Esne e Mach, se é isto que esta procurando.
Ao entrar na pequena loja ela se viu rodeada de coisas estranhas e muitos brinquedos, o senhor mexia em algumas caixas no balcão.
_Desculpe a pergunta, mas porque não estão na vitrine?
_A senhora sabe como é, ninguém mais na cidade tem, alguns já invadiram lojas, não quero a minha quebrada por causa de um brinquedo.
_Eu não sei o que as crianças vêem nisso – ela pegou um dos bonecos.
_Só uma coisa, os meus são diferenciados, eles tem uma particularidade.
_E qual é essa particularidade?
_Você irá descobrir, só tome cuidado eles são delicados.
Noeli pagou pelos brinquedos e saiu da loja contente pela compra. Agora ela iria precisar contar para Lúcia o que comprara e ouvir provavelmente um grande sermão sobre isso, mas ela não ligava.
Ao entrar na casa de Lúcia viu Matheus em um canto chorando:
_O que foi querido?
_Papai Noel me mandou uma carta.
_E isso é ruim?
_Ele disse que os brinquedos que pedi são perigosos e que vai me dar outra coisa.
_Querido não chores, acho que terás muitas surpresas na noite do Natal. Quem sabe o Papai Noel não te pregou uma peça?
O garoto a abraçou fortemente, ela viu Lúcia de longe, e a olhou com reprovação, aquilo não era coisa para se faze com uma criança. Ela se levantou e foi em direção de Lúcia.
_O que pensa que esta fazendo? – falou em um tom baixo, mas enérgico.
_Ele não vai aprender a brincar com essas coisas? Ensinar ele a brigar? Lutar? Ele não vai crescer com esses brinquedos de violência!
_É um brinquedo inocente! Ensina a lutar sim, mas pela paz, você acha que assim, deixando ele neste estado vai adiantar algo?
_Eu não vou dar e ponto final!
_Mas eu vou, já comprei e ele vai ganhar sim! – virou as costas antes que uma discutição maior começasse.
*
Noite de Natal, o céu todo estrelado, a ceia estava quase pronta, a família quase toda reunida, Lúcia estava emburrada em um canto, seu marido Claudio tentava inutilmente conversar com ela.
Quando Noeli chegou percebeu que o filho se aproximava de cara amarrada ela já esperava por algum tipo de bronca, mas não ia deixar de dar o presente ao garoto.
_O que pensa estar fazendo?
_O que sua mulher pensa?
_Ela é a mãe dele!
_E por isso ela tem o direito de fazê-lo chorar sem parar? O brinquedo não irá fazer mal.
_Eu concordei com ela de que ele não ganharia nada deste tipo, se vire com o brinquedo, ele não vai ficar com ele! Você – a frase parou assim que ele percebeu que Matheus o olhava atentamente com os olhos a lacrimejar – filho...
Matheus correu o máximo que pode e se trancou no banheiro, ninguém conseguia tirá-lo de lá nem fazer com que ele falasse, o que causou uma grande discussão sobre o que fazer.
_Filho é a mamãe, olha eu sei que esta chateado e eu te compreendo, por isso se você sair agora vai poder ficar com os bonecos.
A porta se abriu na mesma hora mostrando dois olhos inchados de chorar, contudo com um sorriso nos lábios.
_Onde estão?
_Debaixo da árvore, vai lá pegar! – a avó exibia também um sorriso de triunfo.
Após toda a noite de festa o garoto foi deitar abraçado nos dois bonecos, contudo ao amanhecer ele não conseguia achá-los. Levantou em estado de alerta e saiu do guardo sem fazer muito barulho e viu com muita tristeza a mãe guardando os dois em uma caixa em cima do guarda roupas.
_Eu não quero saber Claudio, ele não vai brincar com isso, vamos inventar qualquer coisa.
_Ele vai ficar magoado.
_Prefiro magoado a ele virar um traficante ou ficar violento por causa de brinquedos assim.
Matheus deixou a conversa para trás e foi chorar em seu quarto. Na parte da tarde foi para a casa de seu visinho, o que ele não sabia era que os brinquedos que ele ganhara eram especiais: eles sempre ficavam perto do seu dono, eliminando tudo que pudesse atrapalhar.
Claudio saiu para seu futebol e Lúcia acabava de arrumar a cozinha quando escutou um barulho estranho vindo do andar de cima, subiu as escadas para ver o que era, o barulho parecia vir de seu quarto.
Ao abrir a porta viu a caixa, onde havia guardado os dois bonecos, caída no chão e tudo que havia ali estava esparramado. Agachou-se para guardar tudo, ao tentar pegar Esne ganhou uma facada na mão deste.
Seus olhos arregalaram ao perceber que os dois bonecos estavam em pé e a encaravam, sua mãe sangrava, ela retirou a pequena faca da mão, que apesar do tamanho havia feito um bom estranho. Lentamente levantou.
_Onde pensa que vai? – Esne era um boneco preto de uns quinze centímetros de altura, sua voz parecia eletrônica e soava aterrorizante, tinha uma outra pequena espada à mão
_Você fala? – A voz de Lúcia saia tremida.
_Não gostamos de ficar presos em caixas – Mach, diferentes de Esne era branco com dourado e carregava uma espécie de machado em uma mão com uma metralhadora na outra, a voz tão aterrorizante quanto à do outro.
_Eu não queria deixá-los preso, mas...
_Nós somos do seu filho, é com ele que devíamos estar e você não irá impedir isso por causa de caprichos bobos – Esne se aproximava dela enquanto falava – eu não acredito que iria nos deixar trancados em uma caixa, até sermos esquecidos.
_Seu filho precisa de nós – Mach estava pronto para atacar e mais próximo dela que Esne.
_Eu juro que não foi por querer – ela apenas chorava, não tinha reação, queria que aquilo fosse um sonho – por favor, não façam nada comigo.
_Desculpa garota, mas já é tarde – Mach disse isso se aproximando mais ainda.
Lúcia saiu correndo, tropeçou no meio da escada, rolando até o andar debaixo, chegando desmaiada.
Claudio chegou do futebol cansado, abriu a porta e se deparou com uma estranha mensagem em vermelho na parede: Preciso de você na cozinha.
Aquilo fez com que um estranho arrepio percorresse seu corpo, ele fechou a porta e foi para a cozinha, em seus pensamentos aquilo não era algo de sua esposa e sim de Matheus, ele tinha a mania terrível de escrever nas paredes.
Ao passar pelas escadas percebeu um estranho tapete ali, contudo não deu importância, virou para a cozinha ficando paralisado com a cena: sua mulher estirada ao chão, coberta de sangue com pequenos furos na superfície da pele, uma faca grande estava ao seu lado, seus olhos abertos pareciam assustados, a boca costurada, as pontas dos dedos arrancadas estavam dependuradas como um varal na porta da geladeira.
Deu um passo para trás e se virou para correr, mas algo o fez tropeçar e cair de cara no chão. Tentou se levantar, mas parecia inútil, havia óleo de cozinha por todo o chão, um boneco branco estava à sua frente.
_E aí grandão? Agora não se sente o tal, não é?
_Não vamos judiar de você igual à sua esposa – Esne aparecia na frente de Claudio – você não estava tão contra assim, mas como não fez nada para mudar a situação...
Matheus abriu a porta de casa lentamente, sabia que iria ganhar a grande bronca por chegar em casa tão tarde, mas ainda estava chateado com tudo. As luzes estavam apagadas, não fez questão de acendê-las, apenas subiu a escada sem muito barulho.
A luz de seu quarto estava aberta, um pequeno bilhete estava colado na porta: “Querido fomos dar uma volta, brinque a vontade”. Ansioso ele entra no quarto e se depara com os bonecos em cima da cama, pula de alegria e se senta para brincar, trava lutas imaginárias com eles.
Ao se cansar deixou os dois de lado e foi brincar com um caminhão que estava no armário, se surpreendeu ao ver os dois andando na sua frente.
_Porque não quer mais brincar conosco? – Esne estava bravo.
_Porque agora eu quero variar, não gosto de ficar com um brinquedo só – Matheus não compreendia o que estava acontecendo.
_Acho que agora a brincadeira irá mudar – Mach se preparava como se fosse lutar.
Uma semana depois o jornal da cidade anunciava doze famílias que haviam sido encontradas mortas, o que não estava na reportagem é que em todas elas as crianças haviam sido presenteadas com brinquedos especiais.

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