domingo, 16 de janeiro de 2011

O mundo além dos mundos




Guilherme olhava para Ana desejando que ela parasse de ser tão teimosa e o deixasse ajudar a organizar os livros. Ela estava custando a alcançar a prateleira de cima, mesmo com a cadeira. Gustavo chegou e apenas apreciou a cena. Quando ela colocou o ultimo livro deu um suspiro.
_Acabei!
_Podia ter acabado mais cedo, sabia? – Gustavo disse.
_Vocês nunca conseguem ajudar quando se trata de organizar.
_Faltou um livro – Guilherme apontou para um que estava perto dele.
Ele pegou o livro e começou a folheá-lo, estava em branco.
_O meu tio dizia coisas estranhas sobre esse livro – Ana olhava para ele com o pensamento longe.
_Como o que? – Guilherme folheava tentando achar alguma palavra.
_Que as palavras só apareceriam nele se um portal se abrisse.
_Portal da onde? – Gustavo se aproximou para ver o livro.
_Não sei. Ele teimava que existia um mundo além de todos os mundos, um onde existe seres com poderes especiais. Antes de morrer ele pediu para tomar cuidado, porque se o portal fosse aberto e um humano entrasse este estaria em um mundo traiçoeiro e cheio de armadilhas.
_Esse não foi seu tio que vocês internaram no hospício? – Guilherme ainda folheava o livro.
_Sim.
O silêncio reinou.

A faxina agora seria no porão, Guilherme ainda tinha o livro nas mãos, sentou-se no baú ao lado de Gustavo enquanto Ana começou a juntar algumas coisas. Estavam entretidos quando o baú começou a tremer. Os garotos se levantaram e ficaram perto de Ana. O chão começou a tremer, o baú se abriu e um vento forte tomou conta do lugar.

Ana abriu os olhos, os dois garotos estavam sentados perto dela ainda atordoados.
_Onde estamos? –Ana se levantou com custo.
_Acho que em uma floresta – Guilherme se levantou também.
Gustavo pegou o livro e se levantou ficando ao lado de Ana. Sem saber o que fazer começaram a andar buscando uma trilha ou algo que os levassem para fora da floresta. Um macaco pulou na cabeça de Gustavo:
_Eu peguei! Intruso! Intruso!
Vários macacos apareceram, eles estavam cercados. Levados para uma cabana, foram presos à parede. Um macaco ficou sentado à frente deles observando-os.
_Onde estamos? – Gustavo quebrou o silêncio.
_Ora, ora. Não se façam de bobos, vocês devem ser da raça dos gnomos ou dos magos. Sabem que esse território é nosso por direito!
_Quem são vocês? Nós somos humanos, pessoas comuns. – Ana não sabia o que fazer, se virou para Guilherme – desde quando macaco fala? Onde estamos?
_Ei! Nós fomos transformados em macacos pelos feiticeiros, éramos duendes antes disso. Vou avisar ao chefe que temos estrangeiros de outro mundo, vocês podem nos servir.
_Servir para que? – Gustavo começou a ficar apreensivo.
O macaco duende se virou.
_Como sacrifício - saiu rindo.

Já estava escuro, Gustavo tentava desamarrar-se, Guilherme arquitetava maneiras de sair dali, Ana apenas contava com a sorte. Um macaco apareceu, os três olharam para ele apreensivos.
_Vou solta-los, mas queremos vocês bem longe. O mais longe possível.
_Onde estamos? – Ana perguntou enquanto ele desamarrava-a.
_Estão no planeta Farts, estamos a milhares de ano luz do seu planeta. Vocês são problemas.
_Problema por quê? – Gustavo olhou para ele cheio de dúvidas, mas havia receio em perguntar.
_Porque o maior dos feiticeiros procura por vocês, por seu sangue e ele esta disposto a tudo para tê-lo. Dizem que com os ingredientes certos traz vida eterna. Agora vão, de preferência para bem longe.
_Você sabe como voltamos para casa? – Ana olhou com olhar de súplica.
_Vão embora!

Perdidos no meio da floresta, os três caminhavam em silêncio absoluto. Na cabeça de cada um rondava milhões de pensamentos. Quando Ana tropeçou e caiu eles pararam.
_O que vamos fazer? – Ana se encostou à árvore mais próxima.
_Eu não sei, mas temos que nos preparar. Isso parece uma ilusão, um sonho, no entanto não importa o que é. Temos que sair. – Guilherme tentava animar os dois.
Após andarem muito avistaram uma aldeia, com receio do que houvesse lá se esconderam em arbustos e observaram o lugar. Havia anões com fantasias estranhas e coloridas. Após um bom tempo de observação eles decidiram continuar a andar, não sabiam em quem confiar.
Andando mais um pouco pararam em um campo florido muito grande, com flores de todos os jeitos e cores. Ana resolveu apanhar uma rosa azul, mas foi impedida por borboletas.
_Quem você pensa que é? – uma garotinha menor que ela e com grandes asas coloridas apareceu na frente dela e dos garotos.
_Eu... – Ana não sabia o que dizer.
_Ninguém colhe do jardim das fadas. Ainda mais você. O que é? Uma feiticeira? Maga? – a fada retirou uma faquinha do bolso lateral.
_Somos humanos – Guilherme se colocou à frente de Ana – estamos de saída.
Ele se virou e foi alcançar os amigos que já iam longe. Gustavo havia puxado Ana para longe.
_O que foi aquilo? – Ana não sabia por que os garotos haviam feito-a correr tanto.
_Talvez pelo fato de ter um exército vindo atrás de nós. – Gustavo estava cansado.
_Como assim? – Ana o olhou apreensiva e com medo das palavras.
_Eu escutei uma coruja dizer que nós éramos procurados. Aqui tudo fala. Temos que sair, achar uma passagem de volta. – Guilherme estava ficando louco.
_Aqui nem tudo fala, mas nós escutamos – uma cobra que descia da árvore e os olhava atentamente falou – sabe, eu era uma feiticeira – ela chegou perto de Ana que estava imóvel – no entanto as coisas mudam e vocês ainda me trazem o livro. Bando de tolinhos.
-O que o livro tem a ver com isso? – Gustavo se aproximou da antiga feiticeira.
_O livro contem os feitiços mais poderosos, inclusive o da vida eterna. Dizem que a maioria precisa de sangue humano. Vocês estão encrencados.
_Onde esta o livro? – Ana se virou para os garotos.
Um olhou para o outro, haviam deixado com os duendes.
_Meu conselho de amiga: fujam enquanto é tempo. Procures voltar de onde vieram.
_Tem algum portal por onde podemos passar? – Guilherme chegou bem próximo a ela.
_Eu não sei, mas sei que enquanto estiverem aqui vão provocar discórdia e confusão. – ela subiu para a árvore e sumiu.
_E agora? – Gustavo olhava para os amigos.
_Eu não sei, podemos confiar? – Ana olhou para cima e sentiu algo pesado bater sobre ela, caiu para trás e colocou a mão na cabeça que doía muito agora.
_É o livro! – Guilherme o pegou e folheou – bom... Eu não sei o que está escrito, mas de todo jeito acho que devemos queima-lo.
_Espere. Se isso tem os maiores feitiços porque a feiticeira nos entregou? – Ana olhava para eles com ar de dúvida.
_Vamos queimar? – Gustavo começou a andar – Vamos até o vilarejo pegar fogo.
_Está doido? Não podemos ir lá, não sabemos quem realmente quer nos ajudar... – Guilherme parou quando uma rede caiu sobre a cabeça deles e esqueletos os cercaram.

Estavam dentro de uma espécie de castelo torto. Esqueletos os vigiavam. Ana tremia de medo. Após horas ali apareceu um homem muito alto, de olhos totalmente vermelhos, pele extremamente branca e barba longa, esta de um azul bem claro. Ele aparentava não ser muito velho.
_Ora, ora, ora. O que temos aqui? Três humanos. E ainda me trouxeram um presente – ele levantou o livro que estava com os garotos – vocês não têm noção do que tem aqui, tem? Acho que não. Então vou lhes dar apenas uma dica: aqui neste livro tem o maior segredo do mundo.
_Deixe-nos ir – Gustavo pediu.
_Não é assim. Sinto muito, vocês tem os ingredientes mais importantes, não posso deixá-los ir.
_Se quer nosso sangue a gente pode te dar um pouco... – Ana tremia.
_A questão não é um pouco, eu preciso de todo o sangue de vocês, eu quero a eternidade e não um pedaço dela.
Ana sentiu a esperança se esvair e um aperto no coração, no entanto ao olha para o lado percebeu escritos em uma parede: “O maior poder vem do sangue e o maior fracasso também, acrescente mais do que precisa: o feitiço se reverterá e o portal se reabrirá.”.
Ela reconheceu a letra, era do seu tio. Mas ela ainda não entendia a profundidade daquilo. Quando percebeu o feiticeiro já havia ido.

Estava amanhecendo, os primeiros raios do dia surgiam. O feiticeiro preparava a poção para a eternidade, chegou perto de Guilherme e furou o dedo dele, contou algumas gotas de sangue.
_Achei que precisava de todo o nosso sangue – Guilherme olhou nos olhos dele.
_A poção da eternidade deve ser tomada durante quatro anos seguidos, em todos os dias de lua cheia. – o feiticeiro sorriu.
_Porque você é bobo, está seguindo a poção primária. – Ana tremia por dentro, agora entendia, a poção tinha que ter pouco sangue, apenas algumas gotas.
_Existe outra? – o feiticeiro chegou perto dela.
_Sim, é a mesma, no entanto você deve colocar cinco vezes a mais de sangue e tomar apenas duas vezes – o coração dela estava disparado.
O feiticeiro olhou para ela com ar de desconfiado, mas a ambição era muito grande, ele espetou o dedo dela e fez cair várias gotas de sangue, depois espetou o de Gustavo e pegou mais gotas. Ao colocar todos os ingredientes juntos  ele se virou para os três:
_Um brinde à vida eterna.
Um vento forte tomou conta do lugar, o tremor começou fraco e logo ficou extremamente forte.

Ana acordou no hospital, sua mãe do lado conversava com o médico, ela sorriu ao ver os garotos em pé perto de uma porta. Gustavo ao se aproximar mostrou a ela as marcas no pulso, havia sido realidade.

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