domingo, 16 de janeiro de 2011

A pureza negra




_Sabrina? É você quem está ai? – Mônica abriu a porta do quarto e quase caiu de susto ao ver a menina toda pintada – Não acredito que você pegou as tintas! Isso é para pintar parede, querida. – mesmo querendo dar uma boa bronca, ela sorriu.
Sabrina era uma menina doce e delicada. Havia sido adotada por Mônica. Brincalhona e esperta a criança de seis anos curtia a nova casa. Havia um quarto cheio de bonecas somente para ela, um balanço colorido e uma casa na árvore.
A adoção havia sido a realização de um sonho, afinal Mônica não podia ter filhos. Ela pensou em fazer uma festa para comemorar o “um mês” que convivia com Sabrina. Nunca imaginara que uma criança pudesse trazer tantos sorrisos.
Depois de dar um banho nela e com muito custo tirar toda a tinta começou a arrumá-la para a festa a fantasia. Seria em um clube local para comemorar o Dia das Bruxas. Sabrina iria de anjo, ela de bruxa e o marido iria de jogador de futebol.
Rogério estava feliz ao ver as duas se darem bem, ele tinha visto a mulher ficar decadente e entrar em depressão por não poder ter filhos, mas para ele àquela era a melhor opção de todas. Ao encaminhar as duas para o carro ele percebeu como faziam uma bela dupla.
Na festa havia pessoas com todo o tipo de fantasia, Sabrina conhecera algumas meninas de sua idade e queria brincar, Mônica fizera mil recomendações e uma delas era: “Fique longe das piscinas”.
Já se passava da meia noite quando o jantar foi servido e Mônica procurava a filha para poderem jantar quando uma mulher deu um grito estridente, Mônica correu pensando na filha, mas o que viu foram duas garotas que estavam vestidas de bruxa boiando na piscina, estavam mortas. Aquilo a assustou, a filha que estava perto correu para ela e a abraçou pedindo para ir embora.
Depois da policia e dos interrogatórios foram para casa, a criança quieta e com olhar perdido. Mônica pensou em dormir com ela, mas Rogério achou que assim seria pior. Ela colocou a filha na cama e foi deitar.
De manhã Rogério acordou e se deparou com a mulher cheia de sangue, viu a filha ao pé da cama brincando com uma faca cheia de sangue.
_Querida o que aconteceu?
_Ela era uma bruxa, bruxas são más, então ela era má.
_Você a matou! – ele tremia.
_Jogadores de futebol são até que legais – ela deu um sorriso inocente para ele.
_Saia daqui!!!
_Porque grita comigo? Você esta sendo mau menino. Meninos maus merecem punição.
_O que...
Ela foi andando vagarosamente para ele, que estava paralisado. Ao desviar do golpe que ela tentava dar ele caiu da cama. Ela mais irritada foi para cima dele com toda a fúria.
Após vê-lo morto ela tomou banho, trocou de roupa, pegou a faca e a colocou na bolsa. Ao abrir a porta viu o lindo dia que fazia, mas não estava interessada nisso. Bateu na casa do visinho.
_Olá Sabrina?
_Olá tia Rose! Eu posso entrar?
_Claro meu anjo. Como você esta?
_Bem.
_Onde estão seus pais?
Com uma carinha de tristeza e olhar cheio de lágrimas ela disse:
_Eles me deixaram.
_Que isso? Não diga uma coisa dessas. Eles te amam.
_Você foi à festa ontem?
_Sim, triste o incidente. Quer comer algo?
_Você estava fantasiada de duende, certo?
_Sim.
_Duendes são criaturas do mal você sabia?
_Quem... – a frase foi interrompida quando ela viu a faca. – o que é isso?
_Duendes não podem viver, são maus.
Ela correu, mas foi acertada nas costas.
Sabrina saiu da casa dela toda alegre, foi para o parquinho. Uma senhora vendo a criança sozinha chamou a policia. Quando ela viu os policiais se aproximarem foi correndo até eles.
_Olá?
_Olá jovem, o que faz aqui sozinha?
_Minha mãe era uma bruxa má e meu pai também era mal, então eu cuidei deles.
O policial não entendeu e tentou convence-la a ir com ele, grave erro, ela ficou irritada e sacou a faca.
_Policial mau!
Duas crianças que brincavam ali ao ver aquela cena ajudaram Sabrina segurando o policial. Repetiam “Policial mal” e quando ele já não apresentava mais sinal de estar vivo voltaram a brincar como inocentes crianças. A senhora que o havia chamado correu para longe, mas ficou abismada ao ver a cena.
Trancou-se em casa, tentando entender onde ficara a pureza das crianças. Onde ficara a inocência.

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